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  • Mizael Izidoro Bello

Dr. Strangelaw ou: Como Eu Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar o Direito.

Estava no meu terceiro ano de direito. Meu irmão, já formado, havia sido aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil.


Ele, junto com outros dois advogados recém formados, certa altura, decidiram fundar o que hoje é o maior escritório de direito trabalhista da Região Metropolitana de Campinas (talvez do estado de São Paulo).


E, naquela época, fui junto.


Precisando aprender e (principalmente) ganhar algum dinheiro, trabalhava com o que podia junto a eles.


De início, creio que é usual para novos escritórios, as ações que respingavam (não choviam) eram, quase sempre, processos que tramitariam (ou tramitavam, quando quem nos procurava era a pessoa requerida na ação) no Juizado Especial Cível de Campinas.


E começou.


Terno e gravata, adquiridos num financiamento junto à Loja Colombo. Ações com valores nunca superiores a vinte salários mínimos.


Me colocaram para acompanhar uma audiência de conciliação. Na seguinte, estava auxiliando e depois tiveram a brilhante (e maluca) ideia de me mandar ir fazer as audiências sem nenhum responsável, apenas eu e o cliente.


Negociava acordos, pontuava questões relevantes, apresentava propostas mirabolantes. Quase sempre finalizava o processo por ali, com o cliente satisfeitíssimo.


Certa vez uma professora da faculdade, que também era coordenadora dos estagiários no setor de conciliação do Juizado Especial de Campinas (hoje quase que engolido totalmente pelo Cejusc), após me ver saindo de uma audiência e me despedindo de um cliente, me chamou, discretamente, à sua sala.


Preocupada, disse que me conhecia e que seria direta. Sem maiores enrolações perguntou:



- Você está no terceiro ano da graduação. Por acaso você está exercendo ilegalmente?


Confesso, cheguei a ficar apreensivo quando ela me chamou à sala, mas, quando vi que era apenas essa a questão, soltei um sorriso e disse:



- Professora, as ações são de valor inferior a vinte salários mínimos. Como a senhora bem sabe, o cliente poderia vir sozinho se quisesse. Interajo na audiência, negocio e, ao fim, quando pedem para assinar a ata, me recuso dizendo estar apenas acompanhando. Se eles pensaram em algum momento que eu era advogado não concerne a mim, eu nunca disse que era, eles pensam o que quiserem pensar.


Ela, tentando esconder uma lágrima nos olhos de orgulho, termina dizendo:


- Você será um excelente advogado, Mizael!

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